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Flurxo

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NBR 5626

Velocidade da água e ruído na tubulação

Quase todo texto na internet cita a velocidade máxima errado. A edição de 2020 mudou a forma da exigência, e a diferença importa.

Retrato de Lucas Brandão

Lucas Brandão Arquiteto e urbanista, responsável técnico do Flurxo

Publicado em

Tubulação de PVC branco aparente dentro de um rasgo aberto na alvenaria, com registro, joelhos e tê ainda sem fechamento.

Se você pesquisar velocidade máxima da água em tubulação, vai encontrar centenas de páginas afirmando que a NBR 5626 proíbe passar de 3 m/s. A edição de 1998 dizia isso. A de 2020, que é a que está em vigor, diz outra coisa, e a diferença muda tanto o que se exige de um projeto quanto o que se conclui de uma instalação existente. A conta que devolve a velocidade a partir da vazão e do diâmetro está no cálculo de vazão.

O que a norma de 2020 realmente diz

A seção 6.8 se chama velocidades mínima e máxima da água e tem cinco itens. Nenhum deles fixa um número. O 6.8.1 exige limitar a velocidade para que o ruído não passe dos valores da NBR 10152. O 6.8.3 exige limitar a velocidade para evitar golpes de aríete com intensidade prejudicial aos componentes. O número aparece só na nota do 6.8.3.

E a nota diz exatamente o contrário do que a internet repete. Nas palavras da norma, o dimensionamento assumindo um limite máximo de velocidade média da água de 3 m/s não evita a ocorrência de golpe de aríete, mas limita a magnitude dos picos de sobrepressão. Ou seja: 3 m/s não é uma fronteira entre instalação segura e instalação perigosa. É uma referência de projeto que reduz a intensidade de um fenômeno que continua existindo.

Há ainda o 6.8.4, que quase ninguém cita e que completa o raciocínio: a limitação de velocidade não se aplica a trechos onde comprovadamente a tubulação não fique sujeita a golpes de aríete e esteja dotada de meios adequados de isolação acústica, ou alojada em local que minimize ou impeça a transmissão de ruídos. A norma, portanto, trata a velocidade como meio, e não como fim. Os fins são dois: ruído sob controle e golpe sem intensidade prejudicial.

Três barulhos diferentes, três causas diferentes

Ruído de escoamento é contínuo e acompanha a água correndo. Golpe de aríete é um estouro seco no momento em que alguém fecha rápido. Cavitação é um chiado agudo que aparece com a peça parcialmente aberta. Confundir os três leva a trocar a coisa errada.

Sintoma Quando aparece Causa provável Item da norma
Chiado contínuo na parede enquanto a água corre velocidade alta no trecho, tubo subdimensionado 6.8.1
Estouro seco ao fechar no fechamento de torneira ou válvula golpe de aríete 6.8.3 e 6.17.1
Assobio agudo com registro ou torneira meio abertos cavitação na restrição de seção 6.8.5
Vibração transmitida ao quarto vizinho sempre que o ponto é usado tubulação sem isolamento acústico ou mal suportada 6.8.2

Golpe de aríete: por que ele existe

A água em movimento tem inércia. Quando o caminho é fechado de repente, essa massa em deslocamento não para instantaneamente: ela comprime contra a obstrução e gera uma onda de sobrepressão que percorre a tubulação de volta. A intensidade cresce com a velocidade no momento do fechamento e com a rapidez do fechamento. Por isso torneira de fechamento rápido, de um quarto de volta, e válvula de descarga são os campeões de golpe: elas interrompem uma coluna rápida quase instantaneamente.

A norma coloca um teto nisso. As sobrepressões devidas a transientes hidráulicos, em relação à pressão dinâmica prevista em projeto, são admitidas desde que não superem 200 kPa, ou cerca de 20 metros de coluna d água. E o item 6.17.1 exige que os componentes, durante o fechamento do fluxo de aparelho sanitário, não provoquem golpe acima desse valor. É esse limite, e não o de 3 m/s, que define se a instalação está conforme.

Onde o golpe cobra a conta. Ele não costuma estourar o tubo na primeira vez. Ele trabalha por fadiga: solta conexão colada, afrouxa rosca, arruína o vedante de registro e antecipa o fim de vida de aquecedor e de válvula. Quando o barulho começa a aparecer numa instalação que era silenciosa, alguma coisa mudou, e quase sempre é uma peça de fechamento rápido que substituiu uma antiga de fechamento gradual.

Cavitação: o barulho que não vem da velocidade média

O item 6.8.5 trata de um caso específico: a velocidade tem de ser limitada a um valor que não provoque cavitação, particularmente em mudanças bruscas de direção e em reduções acentuadas de seção, como em válvulas redutoras de pressão, torneiras, torneiras de boia, registros globo e válvulas de diafragma.

Nesses pontos, a água acelera muito ao passar por uma abertura pequena. A pressão local despenca, bolhas de vapor se formam e colapsam logo em seguida, e é esse colapso que produz o chiado agudo e vai comendo a superfície metálica por dentro. O detalhe importante: a velocidade média no tubo pode estar baixíssima e a cavitação acontecer assim mesmo, porque o que importa ali é a velocidade dentro da restrição. É por isso que trocar o tubo por um mais grosso não resolve chiado de registro meio aberto. O que resolve é abrir o registro por completo e controlar a vazão na peça de utilização, ou reduzir a pressão dinâmica naquele ponto.

O critério dos 10 % que quase ninguém verifica

Existe na norma um requisito de conforto raramente citado e muito fácil de testar em casa. Pelo item 6.14.5, com uma ducha em funcionamento na vazão de projeto, ao se abrir simultaneamente qualquer outro ponto de utilização, a pressão dinâmica atuante na ducha não pode sofrer redução superior a 10 % do valor anterior.

É o teste do chuveiro e da torneira da cozinha. Se o banho enfraquece de forma perceptível quando alguém abre outro ponto, a queda provavelmente passou muito dos 10 %, e isso indica trecho comum subdimensionado ou perda de carga excessiva no caminho. Ruído e perda de carga costumam vir juntos: os dois são sintomas de água correndo rápido demais em seção pequena demais. O caminho de diagnóstico continua em perda de carga e comprimento equivalente e em pressão do chuveiro e altura da caixa.

Velocidade baixa demais também é problema

A seção 6.8 fala em velocidades mínima e máxima, e a mínima existe por um motivo sanitário. O item 6.16.1 manda minimizar a extensão de trechos terminais que não proporcionem renovação frequente de água, os trechos mortos, para evitar estagnação e a formação de biofilme. Tubulação superdimensionada demora mais a renovar a água, demora mais a entregar água quente no ponto e custa mais caro. Diâmetro grande não é sinônimo de instalação melhor.

Até onde esta página vai

Aqui estão os critérios de norma e os mecanismos por trás de cada tipo de ruído. Diagnóstico de instalação existente precisa de visita: tubulação incrustada, registro parcialmente fechado, trecho reduzido dentro da parede e bomba mal dimensionada produzem sintomas parecidos e pedem soluções opostas. E projeto de sistema predial de água fria e quente é documento técnico com responsável habilitado, no qual o método de dimensionamento adotado precisa estar declarado.

Perguntas frequentes

A NBR 5626 limita a velocidade da água a 3 m/s?
Não da forma como se repete por aí. A edição de 2020 não traz o valor como prescrição isolada: o item 6.8.3 manda dimensionar para evitar golpe de aríete com intensidade prejudicial, e a nota desse item diz que assumir o limite de 3 m/s não evita a ocorrência do golpe, apenas limita a magnitude dos picos de sobrepressão.
O que causa o barulho na tubulação de água?
Três coisas diferentes. Velocidade alta gera ruído de escoamento, que é contínuo enquanto a água corre. Fechamento rápido gera golpe de aríete, que é o estouro seco na parede. E restrição de seção em registro ou torneira gera cavitação, um chiado agudo que acompanha a abertura parcial da peça.
O que é golpe de aríete?
É a sobrepressão gerada quando a coluna de água em movimento é interrompida de repente, no fechamento de uma torneira ou de uma válvula de descarga. A norma admite sobrepressões por transiente hidráulico desde que não superem 200 kPa em relação à pressão dinâmica prevista em projeto.
Qual a pressão máxima admitida na tubulação?
A pressão estática nos pontos de utilização não pode superar 400 kPa, o equivalente a cerca de 40 metros de coluna d água. É o limite do item 6.9.5, e ele costuma ser atingido em prédios altos, onde a solução é a válvula redutora de pressão nos pavimentos inferiores.
Por que o chuveiro fica fraco quando abrem outra torneira?
Porque a vazão do trecho comum aumenta e a pressão dinâmica cai. A norma limita isso: com a ducha operando na vazão de projeto, abrir qualquer outro ponto não pode reduzir a pressão dinâmica dela em mais de 10 %. Quando a queda é muito maior, o trecho comum está subdimensionado.

A conta que este texto acompanha

Vazão e perda de carga Vazão em L/s e L/min, velocidade da água e perda de carga do trecho com as conexões.

Fontes

  • ABNT NBR 5626:2020, itens 6.8.1 a 6.8.5, 6.9.5, 6.9.6, 6.14.5, 6.16.1 e 6.17.1 O item 6.8.1 manda dimensionar as tubulações de modo a limitar a velocidade a valores que evitem a geração e a propagação de ruídos acima do que a ABNT NBR 10152 admite. O 6.8.2 trata da necessidade de isolamento acústico conforme o material e a suportação. O 6.8.3 exige limitar a velocidade para evitar golpes de aríete com intensidade prejudicial aos componentes, e sua nota registra que o dimensionamento assumindo limite máximo de 3 m/s não evita a ocorrência do golpe, apenas limita a magnitude dos picos de sobrepressão. O 6.8.4 dispensa a limitação em trechos comprovadamente livres de golpe e acusticamente isolados. O 6.8.5 trata da cavitação em válvulas e peças com restrição local de seção. O 6.9.5 limita a pressão estática nos pontos de utilização a 400 kPa, e o 6.14.5 impede que a abertura de outro ponto reduza em mais de 10 % a pressão dinâmica da ducha em funcionamento.
  • ABRASIP e Secovi-SP, Recomendação Técnica RT-HID-009 rev 0, de 15/12/2020, sobre o atendimento à ABNT NBR 5626:2020 Comenta item a item a norma de 2020. Reproduz o 6.8.5 sobre cavitação em válvulas redutoras de pressão e peças restritoras de fluxo, e o 6.9.7, que admite sobrepressões por transientes hidráulicos desde que não superem 200 kPa em relação à pressão dinâmica prevista em projeto. Registra a errata que renumera o item citado em 6.17.1, sobre golpe de aríete no fechamento de aparelhos sanitários.