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Cálculo de vazão

Retrato de Lucas Brandão

Lucas Brandão Arquiteto e urbanista, responsável técnico do Flurxo

Publicado em Revisado em

O cálculo de vazão é uma multiplicação: área da seção interna vezes velocidade da água. O que quase nunca aparece junto é a consequência dessa conta. Vazão alta em tubo fino vira velocidade alta, e velocidade alta vira ruído na parede, golpe de aríete no fechamento do registro e perda de carga que come toda a pressão antes de a água chegar no chuveiro. Esta página devolve as três coisas de uma vez.

Vazão, velocidade e perda de carga

Informe a vazão desejada e o diâmetro interno do tubo. O resultado traz velocidade, perda de carga do trecho, o diâmetro que devolveria 3 m/s e o tempo de enchimento do reservatório.

L/min

A vazão que o trecho precisa entregar. Se você não tem o número, encha um balde graduado e cronometre: litros divididos por segundos, vezes 60.

mm

O interno, não o nominal. Tubo soldável DN 25 tem 21,6 mm por dentro, e é o vão livre que manda na velocidade.

m

Comprimento real do tubo, medido pelo caminho que ele faz, somando subidas e descidas.

m

Cada joelho, tê e registro vale um tanto de tubo reto. Some os valores da tabela e traga o total aqui.

L

Para calcular tempo de enchimento de caixa d água, banheira ou piscina. Deixe em zero se não interessa.

Vazão 0,200L/s 12,0 L/min, ou 0,72 m³/h
Velocidade da água 0,55m/s
Perda de carga do trecho 3,81kPa
  • Atenção Este é o cálculo de um trecho, com uma vazão que você informou. Projeto de rede predial soma trechos, define a vazão de cada um por um método declarado e confere a pressão dinâmica que sobra em cada ponto. A norma de 2020 não traz mais tabela de vazão por aparelho: ela exige que o projeto explicite as vazões adotadas e justifique o método usado para chegar nelas. NBR 5626:2020, itens 6.7.1 e 6.14.2
Ver a conta completa
Perda de carga unitáriapela equação de Fair-Whipple-Hsiao para tubo liso
0,2383kPa/m
Comprimento total de cálculo10,0 m de tubo mais 6,0 m equivalentes de conexão
16,0m
Vazão do tubo a 3 m/so que este diâmetro comportaria na velocidade de referência da norma
66,0L/min
Diâmetro interno para 3 m/sabaixo disso a velocidade passa da referência para esta vazão
9,2mm
Tempo de enchimento1.000 L a 12,0 L/min, ou 1,39 h
83,3min
  • Confere 0,55 m/s fica dentro dos 3 m/s de referência. Esse valor não é um teto absoluto da edição de 2020: ele aparece como nota do item 6.8.3, e o que a norma exige é dimensionar para que o golpe de aríete não chegue a intensidade prejudicial e para que o ruído não passe dos limites da NBR 10152. NBR 5626:2020, item 6.8.3 e nota
  • Nota Existe um critério de conforto que quase ninguém confere: com a ducha funcionando na vazão de projeto, abrir qualquer outro ponto não pode derrubar a pressão dinâmica dela em mais de 10 %. É esse item que explica o chuveiro que enfraquece quando alguém abre a torneira da cozinha. NBR 5626:2020, item 6.14.5

Vazão: 0,200 L/s. Velocidade da água: 0,55 m/s. Perda de carga do trecho: 3,81 kPa. Este é o cálculo de um trecho, com uma vazão que você informou. Projeto de rede predial soma trechos, define a vazão de cada um por um método declarado e confere a pressão dinâmica que sobra em cada ponto. A norma de 2020 não traz mais tabela de vazão por aparelho: ela exige que o projeto explicite as vazões adotadas e justifique o método usado para chegar nelas.

Como calcular vazão: a fórmula

Vazão é área vezes velocidade. Num tubo circular, a área é pi vezes o diâmetro interno ao quadrado dividido por quatro. Com o diâmetro em milímetros e a velocidade em metros por segundo, a vazão em litros por segundo é o quadrado do diâmetro vezes a velocidade dividido por 1.273,24.

Q (L/s) = π × D² × v ÷ 4.000

D em milímetros, v em metros por segundo. A conta inversa é a que mais interessa em obra: com a vazão conhecida, a velocidade é Q dividido pela área, e é ela que diz se o diâmetro escolhido aguenta o serviço. Um chuveiro comum pede algo em torno de 12 L por minuto. Em tubo soldável DN 25, com 21,6 mm internos, isso dá 0,55 m/s, tranquilo. Colocar a mesma vazão num tubo de 17 mm sobe para 0,88 m/s, ainda confortável. O problema aparece quando o mesmo ramal alimenta vários pontos ao mesmo tempo, porque as vazões somam e a velocidade sobe junto.

Diâmetro nominal não é diâmetro interno

O número que dá nome ao tubo é o diâmetro externo. O que manda na vazão é o interno, que é o externo menos duas paredes. No soldável DN 25, a parede tem 1,7 mm, então sobram 21,6 mm por dentro, e não 25.

Tubo soldável Parede Diâmetro interno Seção Vazão a 3 m/s
DN 20 1,5 mm 17,0 mm 2,27 cm² 40,9 L/min
DN 25 1,7 mm 21,6 mm 3,66 cm² 66,0 L/min
DN 32 2,1 mm 27,8 mm 6,07 cm² 109,3 L/min
DN 40 2,4 mm 35,2 mm 9,73 cm² 175,2 L/min
DN 50 3,0 mm 44,0 mm 15,21 cm² 273,7 L/min
DN 60 3,3 mm 53,4 mm 22,40 cm² 403,1 L/min

A última coluna é o teto prático de cada bitola se a velocidade de referência for respeitada. Ela explica por que subir um diâmetro resolve tanto: da DN 25 para a DN 32, a seção cresce 66 % e a perda de carga despenca, porque ela varia com o diâmetro elevado a quase cinco. O levantamento completo das bitolas, incluindo roscável e as diferenças entre fabricantes, está em diâmetro de tubo de água fria.

Os 3 m/s que quase todo mundo cita errado

A edição de 1998 da NBR 5626 fixava a velocidade máxima em 3 m/s. A de 2020 mudou a forma: o item 6.8.3 exige dimensionar para evitar golpe de aríete com intensidade prejudicial aos componentes, e a nota daquele item diz que assumir 3 m/s não evita o golpe, apenas limita a magnitude dos picos de sobrepressão.

A diferença não é acadêmica. Quem repete que a norma proíbe passar de 3 m/s está dando uma informação desatualizada, e quem conclui daí que ficar abaixo de 3 m/s resolve o golpe de aríete está errando de outro jeito, mais perigoso. O golpe continua existindo; o que a velocidade menor faz é diminuir o pico. Existem dois outros limites na mesma norma que amarram o assunto: as sobrepressões por transiente hidráulico não podem superar 200 kPa em relação à pressão de projeto, e a pressão estática nos pontos de utilização não pode passar de 400 kPa.

O segundo motivo para segurar a velocidade é o ruído. O item 6.8.1 manda dimensionar as tubulações de modo a limitar a velocidade a valores que evitem a geração e a propagação de ruídos acima do que a ABNT NBR 10152 admite. É esse item, e não o de 3 m/s, que explica o chiado na parede do quarto quando alguém abre a torneira da cozinha de madrugada. O assunto tem página própria em velocidade da água e ruído na tubulação.

Perda de carga: o trecho é mais comprido do que parece

Cada joelho, tê e registro atrapalha o escoamento como se fosse um pedaço de tubo reto. Essa equivalência é o comprimento equivalente, e ele se soma ao comprimento real antes de multiplicar pela perda unitária.

Ju (kPa/m) = 8,69 × 10⁶ × Q1,75 × D-4,75

Q em litros por segundo e D em milímetros. É a equação de Fair-Whipple-Hsiao para tubos lisos, que é como se classificam plástico, cobre e ligas de cobre, e a NBR 5626 de 1998 a publicava nessa forma. A edição de 2020 não prescreve mais fórmula: o item 6.14.4 diz que a equação universal de perda de carga é a mais indicada e que, ao usar equações empíricas, convém adotar a mais adequada ao material e ao diâmetro do trecho. Para tubo liso predial entre 12,5 e 100 mm, Fair-Whipple-Hsiao é essa equação.

Um exemplo que mostra o tamanho do efeito. Um ramal de 15 m em tubo de 44,0 mm conduzindo 1,95 L/s tem perda unitária de 0,4367 kPa por metro. Se houver quatro cotovelos de 90 graus, cada um valendo 3,2 m equivalentes, o comprimento de cálculo passa de 15 para 27,8 m, e a perda total sobe de 6,55 para 12,14 kPa. As conexões responderam por quase metade da perda do trecho. Em ramal curto de banheiro, cheio de joelho, elas costumam responder por mais da metade, e é por isso que endireitar o traçado rende mais pressão do que trocar o tubo por um mais grosso. A tabela por peça está em perda de carga e comprimento equivalente.

Cálculo de vazão: exemplo resolvido

Um ramal de chuveiro com 12 L por minuto, tubo soldável DN 25 com 21,6 mm internos, 10 m de tubo e 6 m equivalentes de conexão, alimentando uma caixa de mil litros. É a configuração que a ferramenta abre preenchida.

Saída Valor De onde vem
Vazão 0,200 L/s 12 L/min divididos por 60
Velocidade da água 0,55 m/s 0,2 L/s sobre a seção de 3,66 cm²
Perda de carga unitária 0,2383 kPa/m Fair-Whipple-Hsiao com 0,2 L/s em 21,6 mm
Perda de carga do trecho 3,81 kPa 16 m de cálculo, entre tubo e conexões
Vazão do tubo a 3 m/s 66,0 L/min o teto prático desta bitola
Tempo de enchimento 83,3 min 1.000 L a 12 L/min

Esse resultado é confortável em tudo, e é assim que um ramal isolado se comporta. O aperto aparece quando vários pontos abrem juntos: a vazão do trecho comum soma, a velocidade sobe na mesma proporção, e a perda de carga sobe elevada a 1,75. Dobrar a vazão de um trecho não dobra a perda, multiplica por 3,4.

Tempo de enchimento e o prazo que a norma dá

O tempo de enchimento é a conta mais simples da página, volume dividido por vazão, e mesmo assim tem um critério de norma amarrado nela. O item 6.7.2 exige que a vazão de abastecimento reponha o volume destinado ao consumo diário em até 6 horas, e em até 3 horas no caso de residência unifamiliar. Um alimentador predial que demora mais que isso deixa a reserva descoberta no pico seguinte de consumo, e o morador atribui o problema à caixa pequena demais quando o problema é a entrada estrangulada. O volume de reserva por morador sai da calculadora de caixa d água.

O que esta conta não resolve

  1. A vazão de cada aparelho. A edição de 2020 da norma deixou de trazer tabela de vazão por peça de utilização. Ela exige que o projeto declare as vazões consideradas e justifique o método usado para chegar nelas, o que pode ser probabilístico, somatório de pesos ou vazão máxima possível.
  2. A pressão disponível. Perda de carga só significa alguma coisa contra a pressão que existe no início do trecho, e ela vem da altura da caixa ou do sistema de pressurização. A conversão de altura em pressão está em pressão do chuveiro e altura da caixa.
  3. A rede inteira. Projeto de instalação predial encadeia trechos, e a pressão que sobra de um é a que entra no seguinte. Uma conta isolada não substitui esse encadeamento.
  4. Esgoto e água pluvial. São outras normas e outro método de dimensionamento. Para a calha e o condutor da chuva, veja calha e condutor de água de chuva.

Onde esta conta para

Esta página calcula um trecho com a vazão que você informou. Projeto de sistema predial de água fria e quente é documento técnico, com método de dimensionamento declarado, verificação de pressão em cada ponto e responsável técnico. Instalação que já existe e apresenta ruído, golpe ou pressão insuficiente precisa de diagnóstico no local, porque a causa pode estar em tubulação incrustada, registro parcialmente fechado ou trecho reduzido dentro da parede, e nenhuma dessas coisas aparece numa fórmula.

Para decidir o que a conta não decide

Perguntas frequentes

Como calcular vazão de água em um tubo?
Vazão é a área interna do tubo vezes a velocidade da água. Em tubo de 21,6 mm de diâmetro interno, que é o soldável DN 25, a seção tem 3,66 cm²; com água a 1 m/s a vazão é de 0,37 L/s, ou 22 L por minuto. Sem medidor, dá para medir pelo balde: litros recolhidos divididos pelos segundos cronometrados.
Qual a fórmula do cálculo de vazão?
Q é igual a A vezes v, com a área em metros quadrados e a velocidade em metros por segundo, o que devolve a vazão em metros cúbicos por segundo. Multiplicando por mil chega-se a litros por segundo, e por sessenta mil, a litros por minuto. A área de um tubo circular é pi vezes o diâmetro interno ao quadrado dividido por quatro.
Qual a velocidade máxima da água na tubulação?
Três metros por segundo é o valor de referência, mas a edição de 2020 da NBR 5626 não o apresenta como um teto. O item 6.8.3 manda dimensionar para evitar golpe de aríete com intensidade prejudicial, e a nota registra que assumir 3 m/s não evita o golpe, apenas limita a magnitude dos picos de sobrepressão. O item 6.8.1 exige limitar a velocidade para que o ruído fique dentro da NBR 10152.
Qual o diâmetro interno do tubo de PVC soldável?
O tubo soldável DN 20 tem parede de 1,5 mm e 17,0 mm internos; o DN 25 tem 1,7 mm e 21,6 mm; o DN 32 tem 2,1 mm e 27,8 mm; o DN 40 tem 2,4 mm e 35,2 mm; o DN 50 tem 3,0 mm e 44,0 mm. O número do nome é o diâmetro externo, e é o interno que manda na vazão.
Como calcular a perda de carga da tubulação?
Pela perda unitária multiplicada pelo comprimento total, que é o tubo reto mais o comprimento equivalente das conexões. Para tubo liso, a equação de Fair-Whipple-Hsiao dá a perda unitária em kPa por metro a partir da vazão em litros por segundo e do diâmetro interno em milímetros.
Quanto tempo demora para encher uma caixa d água?
O volume dividido pela vazão de entrada. Uma caixa de mil litros alimentada a 20 L por minuto enche em 50 minutos. A norma pede que a vazão de abastecimento reponha o volume do consumo diário em até 6 horas, e em até 3 horas quando se trata de residência unifamiliar.
Por que o chuveiro enfraquece quando abrem a torneira?
Porque a pressão que importa é a dinâmica, medida com água correndo, e ela cai quando a vazão do trecho comum aumenta. A norma limita isso: com a ducha operando na vazão de projeto, abrir outro ponto não pode reduzir a pressão dinâmica dela em mais de 10 %.

Fontes

  • ABNT NBR 5626:2020, itens 6.7.2, 6.8.1 a 6.8.5, 6.9.1 a 6.9.5, 6.14.2 a 6.14.5 e 6.16.1 Cópia da norma de sistemas prediais de água fria e água quente. O item 6.7.2 fixa a reposição do reservatório em até 6 h, e em até 3 h em residência unifamiliar. O 6.8.1 manda limitar a velocidade para atender aos níveis de ruído da ABNT NBR 10152, e a nota do 6.8.3 registra que o limite de 3 m/s não evita o golpe de aríete, apenas limita a magnitude dos picos de sobrepressão. O 6.9.2 exige pressão dinâmica de no mínimo 10 kPa no ponto de utilização, o 6.9.3 exige 5 kPa em qualquer ponto da rede e o 6.9.5 limita a pressão estática a 400 kPa. O 6.14.5 impede que a abertura de outro ponto derrube em mais de 10 % a pressão dinâmica da ducha.
  • Viptec, módulo de dimensionamento de água fria, Eng. Moacir de Oliveira Junior Apresenta a equação de Fair-Whipple-Hsiao da ABNT NBR 5626:1998 na forma usada nesta página, com perda unitária em kPa por metro, vazão em litros por segundo e diâmetro interno em milímetros, e traz o exemplo resolvido que serve de aferição: 1,95 L/s em tubo de 44,0 mm devolvem 0,436697 kPa/m, e um trecho de 15 m com quatro cotovelos de 3,2 m equivalentes perde 12,14 kPa.
  • Tigre, catálogo técnico de água fria, itens da linha soldável Tabela de dimensões do tubo soldável com o diâmetro externo e a espessura de parede de cada bitola: 20 mm com 1,5 mm de parede, 25 com 1,7, 32 com 2,1, 40 com 2,4, 50 com 3,0, 60 com 3,3, 75 com 4,2, 85 com 4,7 e 110 com 6,1 mm. Os diâmetros internos usados aqui são o externo menos duas espessuras.
  • ABRASIP e Secovi-SP, Recomendação Técnica RT-HID-009 rev 0, de 15/12/2020, sobre o atendimento à ABNT NBR 5626:2020 Documento da Associação Brasileira de Engenharia de Sistemas Prediais com o Secovi-SP, que comenta item a item a norma de 2020. Registra que a escolha do método de dimensionamento fica a critério do projetista, desde que informada em projeto, e discute o item 6.7.2 da vazão de abastecimento do reservatório.