NBR 6118
Fck, cobrimento e classe de agressividade
Onde a obra fica decide a resistência do concreto e a espessura que cobre o ferro. As duas coisas saem da mesma tabela, e quase toda obra pequena erra a segunda.
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A NBR 6118 amarra três coisas à mesma variável. Primeiro se classifica o ambiente em uma de quatro classes de agressividade. Dessa classe saem a relação máxima entre água e cimento e a classe mínima do concreto, na Tabela 7.1. E dela sai também o cobrimento nominal de cada elemento estrutural, na Tabela 7.2. Um concreto C20 em ambiente marinho não é um concreto fraco: é um concreto na classe errada, e nenhuma quantidade de ferro compensa isso.
O volume de concreto e o traço saem da calculadora de concreto, que trabalha com concreto não estrutural. Esta página trata do que a norma exige quando a peça é estrutural.
Qual é a classe de agressividade do seu ambiente?
São quatro. Classe I, fraca, para ambiente rural e submerso, com risco de deterioração insignificante. Classe II, moderada, para ambiente urbano, risco pequeno. Classe III, forte, para ambiente marinho e industrial, risco grande. Classe IV, muito forte, para ambiente industrial quimicamente agressivo e respingos de maré, risco elevado.
| Classe | Agressividade | Tipo de ambiente | Risco de deterioração |
|---|---|---|---|
| I | Fraca | Rural e submersa | Insignificante |
| II | Moderada | Urbana | Pequeno |
| III | Forte | Marinha e industrial | Grande |
| IV | Muito forte | Industrial agressiva e respingos de maré | Elevado |
Duas notas da própria tabela abrandam a classificação, e as duas importam em obra residencial. A primeira permite admitir uma classe mais branda para ambientes internos secos, e nomeia salas, dormitórios, banheiros, cozinhas e áreas de serviço de apartamentos residenciais e conjuntos comerciais, além de concreto revestido com argamassa e pintura. A segunda permite abrandar em obras em regiões de clima seco, com umidade média relativa do ar igual ou menor que 65 %, em partes protegidas de chuva ou em regiões onde raramente chove.
O item 6.4.3 fecha do outro lado: o responsável pelo projeto estrutural, de posse de dados do ambiente, pode considerar classificação mais agressiva que a da tabela. A norma dá um piso, não um teto.
Que concreto cada classe exige
Em concreto armado, a Tabela 7.1 fixa relação água e cimento em massa de no máximo 0,65 na classe I, 0,60 na II, 0,55 na III e 0,45 na IV, com classe de concreto de no mínimo C20, C25, C30 e C40 respectivamente. Em concreto protendido os valores são mais rígidos, começando em 0,60 e C25.
| Concreto armado | Classe I | Classe II | Classe III | Classe IV |
|---|---|---|---|---|
| Relação água e cimento, em massa | até 0,65 | até 0,60 | até 0,55 | até 0,45 |
| Classe de concreto | C20 ou mais | C25 ou mais | C30 ou mais | C40 ou mais |
A norma explica por que as duas linhas andam juntas. Ela reconhece uma forte correspondência entre a relação água e cimento, a resistência à compressão e a durabilidade, e por isso permite adotar esses mínimos na falta de ensaios comprobatórios de desempenho de durabilidade. Não é que a resistência proteja o aço: é que o concreto com pouca água é mais fechado, e concreto mais fechado deixa entrar menos agressivo.
Isso muda o significado de acertar o traço. Aumentar cimento para elevar a resistência sem baixar a água entrega um concreto mais forte e igualmente permeável. Quem controla a durabilidade é o denominador da fração, não o numerador.
Qual o cobrimento de cada peça
Em concreto armado, laje leva 20 mm na classe I, 25 na II, 35 na III e 45 na IV. Viga e pilar levam 25, 30, 40 e 50 mm. Elementos estruturais em contato com o solo levam 30, 40 e 50 mm. Os valores da Tabela 7.2 já embutem tolerância de execução de 10 mm.
| Elemento, concreto armado | Classe I | Classe II | Classe III | Classe IV |
|---|---|---|---|---|
| Laje | 20 mm | 25 mm | 35 mm | 45 mm |
| Viga e pilar | 25 mm | 30 mm | 40 mm | 50 mm |
| Em contato com o solo | 30 mm | 40 mm | 50 mm | 50 mm |
| Laje, concreto protendido | 25 mm | 30 mm | 40 mm | 50 mm |
| Viga e pilar, protendido | 30 mm | 35 mm | 45 mm | 55 mm |
Três notas da tabela mudam casos concretos. Em pilar no trecho de contato com o solo junto à fundação, o cobrimento nominal precisa ser de no mínimo 45 mm, qualquer que seja a classe. Em superfícies expostas a ambientes agressivos, como reservatório, estação de tratamento e canaleta de efluente, aplicam-se os cobrimentos da classe IV. E, para concreto de classe de resistência superior à mínima exigida, os cobrimentos podem ser reduzidos em até 5 mm.
A nota da face superior de laje é a que mais aparece em reforma. Quando a laje ou a viga vai ser revestida com argamassa de contrapiso, com revestimento final seco como carpete e madeira, ou com piso cerâmico e similares, as exigências da tabela podem ser substituídas por outro critério, respeitado um cobrimento nominal de no mínimo 15 mm.
Como o cobrimento vira erro de obra
Por falta de espaçador. O cobrimento não se mede, se garante: ele é a distância entre a fôrma e a barra, mantida por peças plásticas ou de argamassa amarradas à armadura. Sem espaçador, a ferragem encosta na fôrma sob o peso de quem caminha sobre ela, e o cobrimento naquele ponto vira zero.
É o erro mais barato de evitar e o mais caro de corrigir. Barra encostada na fôrma fica exposta assim que a peça é desformada, ou pior, fica escondida sob dois milímetros de nata que descascam em dois anos. Da armadura exposta ao concreto lascado sobre a barra o caminho é curto, e o conserto é reforço estrutural.
A tolerância de 10 mm embutida na tabela existe justamente para absorver o desvio de execução, e não para ser gasta de propósito. Adotar 20 mm em laje classe I e executar 10 mm porque o espaçador cedeu significa entregar uma laje na tolerância mínima absoluta, sem margem nenhuma.
Drenagem entra na durabilidade
A seção 7.2 da mesma norma trata disso como critério de projeto. Deve ser evitada acumulação de água sobre superfícies de concreto, superfícies horizontais expostas devem ser drenadas com ralos e condutores, juntas sujeitas à ação de água devem ser seladas, topos de platibanda e parede devem ser protegidos, beirais devem ter pingadeira e encontros em níveis diferentes devem ter rufo.
É uma lista de detalhes de arquitetura dentro de uma norma de estrutura, e ela existe porque água parada é o transporte de tudo que ataca o concreto. Platibanda sem cobre-muro e beiral sem pingadeira aparecem nessa lista pelo mesmo motivo, e o assunto se cruza com telhado embutido e platibanda.
Até onde esta página vai
As tabelas aqui são de projeto de estrutura, e servem para entender o que o projetista pediu e para conferir se a obra está executando aquilo. Elas não permitem dimensionar nada: definição de classe de agressividade, escolha de fck, cálculo de armadura e detalhamento são atribuição privativa de profissional habilitado, e a própria norma atribui a classificação ao responsável pelo projeto estrutural. O concreto empregado precisa cumprir a NBR 12655, que trata de preparo, controle, recebimento e aceitação.
Perguntas frequentes
- Qual o fck mínimo para concreto armado?
- Depende da agressividade do ambiente. Pela Tabela 7.1 da NBR 6118, o concreto armado precisa de classe C20 na agressividade fraca, C25 na moderada, C30 na forte e C40 na muito forte. Não existe um fck mínimo único: existe um por classe de exposição.
- Qual o cobrimento da armadura de uma laje?
- Pela Tabela 7.2, o cobrimento nominal de laje em concreto armado é de 20 mm na classe I, 25 mm na II, 35 mm na III e 45 mm na IV. Em viga e pilar, sobe para 25, 30, 40 e 50 mm. Todos esses valores já consideram tolerância de execução de 10 mm.
- Meu apartamento é ambiente urbano, classe II?
- A nota da Tabela 6.1 permite admitir uma classe mais branda para ambientes internos secos, e cita explicitamente salas, dormitórios, banheiros, cozinhas e áreas de serviço de apartamentos residenciais, além de concreto revestido com argamassa e pintura. Área externa e fachada não entram nessa nota.
- Posso reduzir o cobrimento se usar concreto mais forte?
- Em até 5 mm. A própria Tabela 7.2 registra que, para concretos de classe de resistência superior ao mínimo exigido, os cobrimentos definidos ali podem ser reduzidos em até 5 milímetros. É a única redução que a tabela autoriza.
- Por que a relação água e cimento aparece junto do fck?
- Porque a norma diz que existe forte correspondência entre a relação água e cimento, a resistência à compressão e a durabilidade. Na falta de ensaios de desempenho de durabilidade, ela permite adotar os requisitos mínimos da Tabela 7.1, que amarra os dois valores à mesma classe de agressividade.
A conta que este texto acompanha
Concreto e traço Cimento, areia, brita e água para concreto não estrutural.
Fontes
- ABNT NBR 6118:2014, projeto de estruturas de concreto, itens 6.4.2, 7.2, 7.4 e Tabelas 6.1, 7.1 e 7.2 Versão corrigida da norma. Traz a Tabela 6.1 com as quatro classes de agressividade ambiental, a Tabela 7.1 com a relação água e cimento máxima e a classe de concreto mínima para cada classe, e a Tabela 7.2 com o cobrimento nominal por elemento estrutural. Inclui as notas sobre microclima, a redução de 5 mm para concreto de classe superior à mínima e o cobrimento de 45 mm em pilar junto à fundação.
- ABNT NBR 12655:2015, concreto de cimento Portland, cópia hospedada pela PUC Goiás A NBR 6118 remete a esta norma para os requisitos do concreto empregado na execução das estruturas, incluindo o controle de resistência que valida a classe adotada.