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NBR 14931

Cura do concreto

Molhar a laje por sete dias virou regra de bolso. A norma pede outra coisa, e entender qual muda o que se faz num dia de sol forte.

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A ABNT NBR 14931 não manda curar por sete dias. Ela manda curar até que elementos estruturais de superfície atinjam resistência característica à compressão igual ou maior que 15 MPa, medida conforme a NBR 12655. Sete dias é o tempo que costuma levar para chegar lá com cimento comum em clima ameno, e por isso o número pegou. Em dia quente e seco, com vento, a superfície pode perder a água necessária antes disso. Em dia frio, o concreto demora mais.

O traço, o volume e o consumo de cimento saem da calculadora de concreto.

Para que serve a cura

A norma lista três objetivos, no item 10.1: evitar a perda de água pela superfície exposta, assegurar uma superfície com resistência adequada, e assegurar a formação de uma capa superficial durável. Repare que dois dos três falam da superfície. A cura protege a casca, e é a casca que protege a armadura.

A água do concreto tem duas funções que competem entre si. Uma parte reage quimicamente com o cimento, e é ela que gera resistência. Outra parte serve só para dar trabalhabilidade, e vai embora. Quando a superfície perde água rápido demais, o cimento daquela camada fica sem o que reagir, e o que sobra é pó de cimento comprimido em vez de pasta endurecida.

O sintoma é reconhecível meses depois. Piso de garagem que solta pó branco quando varrido, laje que descasca em placas finas, contrapiso que esfarela na borda. Nenhum desses é falta de cimento no traço: é falta de água na hora de hidratar o cimento que já estava lá.

Contra o que se protege

A norma nomeia os agentes: mudanças bruscas de temperatura, secagem, chuva forte, água torrencial, congelamento, agentes químicos, e choques e vibrações de intensidade capaz de produzir fissuras na massa ou prejudicar a aderência à armadura. Chuva forte está na mesma lista que secagem, e por motivo oposto.

Chuva não é cura. Chuva forte sobre concreto fresco lava a nata da superfície e aumenta localmente a relação entre água e cimento, o que reduz resistência exatamente na camada que mais precisa dela. Cura é lâmina de água controlada ou barreira contra evaporação, não água caindo de altura sobre a peça ainda mole.

Vibração também entra na lista, e é o item mais esquecido em obra pequena. Bater forma, apoiar escada, circular com carrinho e usar marreta perto de uma peça recém-concretada rompe a aderência entre concreto e armadura no momento em que ela está se formando. O dano não aparece e não sai.

Como curar, na prática

Qualquer método que impeça a evaporação serve, e a escolha depende da peça. Lâmina de água e tecido úmido funcionam em superfície horizontal. Lona plástica funciona quando dá para vedar as bordas. Membrana de cura, aplicada por aspersão, funciona onde molhar é inviável. E a própria fôrma cura pilar e lateral de viga enquanto estiver no lugar.

Método Onde funciona Cuidado
Lâmina de água represada laje e piso com borda a água precisa cobrir, não escorrer
Tecido ou serragem úmida laje, piso, calçada reumedecer antes de secar, inclusive à noite
Lona plástica qualquer superfície horizontal vedar as bordas, senão vira efeito chaminé
Membrana de cura por aspersão peça grande e de difícil acesso confira compatibilidade com o revestimento futuro
Manter a fôrma pilar e lateral de viga o prazo de desforma passa a depender da cura

A norma faz uma observação direta sobre a última linha: se a fôrma for parte integrante do sistema de cura, como em pilares e laterais de vigas, o tempo de remoção deve considerar os requisitos de cura da seção 10. Ou seja, tirar a forma cedo não é só uma decisão estrutural, é também uma decisão de cura. O critério estrutural está em desforma e retirada do escoramento.

Quando se usa água, ela precisa ser potável ou atender às exigências da NBR 12654. Água de poço com sais, água de rio com matéria orgânica e água de reúso sem controle entram em contato direto com a peça durante dias, e o que estiver dissolvido nela fica.

Concretar no calor

A norma aciona cuidados quando a temperatura ambiente é muito quente, a partir de 35 °C, em especial com umidade relativa do ar baixa, abaixo de 50 %, e vento alto. Manda tomar providências imediatamente após lançamento e adensamento para reduzir a perda de água, e suspender a concretagem com temperatura ambiente acima de 40 °C.

Os três fatores se somam. A 35 °C com 40 % de umidade e vento, a superfície de uma laje pode perder água mais rápido do que a exsudação repõe, e é aí que aparece a fissuração plástica, aquele desenho de trincas curtas e aleatórias que surge nas primeiras horas, antes de o concreto ganhar qualquer resistência.

Um número da norma que merece nota. O item 9.3.3 cita velocidade do vento alta como 30 m/s e manda suspender acima de 60 m/s. Trinta metros por segundo são 108 km/h, o que é vendaval, e sessenta são 216 km/h. Reproduzimos como está publicado e registramos que o valor parece incompatível com a intenção do item, que trata de perda de água por vento em obra corrente.

Concretar no frio

A temperatura da massa de concreto no momento do lançamento não pode ser inferior a 5 °C. E, salvo disposição em contrário do projeto ou do responsável técnico, a concretagem deve ser suspensa sempre que estiver prevista queda da temperatura ambiente abaixo de 0 °C nas 48 horas seguintes.

O frio não estraga o concreto, ele atrasa a hidratação: a resistência chega mais tarde, e o cronograma inteiro escorrega. O que estraga é congelar. Água que vira gelo dentro da massa aumenta de volume e rompe a estrutura que estava se formando, e esse dano é permanente.

A norma admite acelerar o endurecimento por tratamento térmico ou por aditivo, com uma proibição explícita: nada de produtos que contenham cloreto de cálcio. Cloreto ataca quimicamente a armadura, e o efeito aparece anos depois como corrosão e concreto lascando sobre a barra.

O erro que a cura não conserta

Excesso de vibração. O item 9.8 alerta contra manipulação excessiva, como vibração muito demorada ou repetida no mesmo ponto, porque isso segrega o material e faz o fino e a água migrarem para a superfície. O resultado é uma camada superficial rica em água e pobre em agregado, que nenhuma cura torna resistente.

A regra prática que decorre disso é vibrar até a bolha parar de subir e retirar o vibrador devagar, mudando de ponto em vez de insistir. Concreto que forma uma poça brilhante de água na superfície durante a vibração já passou do ponto.

Até onde esta página vai

Os requisitos aqui são os da NBR 14931 na edição de 2004, que foi revisada em 2023 com o título de execução de estruturas de concreto armado, protendido e com fibras. A edição nova pode ter alterado prazos e critérios que não conferimos na fonte, e por isso citamos apenas o que lemos. Controle tecnológico, moldagem e rompimento de corpos de prova, e aceitação do concreto seguem a NBR 12655. Definição do fck, do plano de concretagem e do plano de desforma é trabalho do responsável pelo projeto estrutural.

Perguntas frequentes

Por quantos dias curar o concreto?
A NBR 14931 não dá um número de dias. Ela exige que elementos estruturais de superfície sejam curados até atingir resistência característica à compressão igual ou maior que 15 MPa. O tempo até chegar lá depende do cimento, do traço e da temperatura, e por isso o critério é de resistência, não de calendário.
O que acontece se eu não curar o concreto?
A superfície perde água antes de o cimento hidratar. O resultado é uma capa superficial fraca e porosa, que solta pó, desgasta com o uso e deixa entrar agressivos que atacam a armadura. O miolo da peça pode estar bom e a superfície, que é justamente a que protege o aço, não.
Molhar o concreto é a única forma de curar?
Não. Cura é qualquer providência que impeça a perda de água pela superfície exposta: lâmina de água, tecido úmido, lona plástica, membrana de cura ou manter a fôrma no lugar. A norma observa que, em pilar e lateral de viga, a fôrma faz parte do sistema de cura, e o prazo de retirada precisa considerar isso.
Posso concretar em dia muito quente?
Com cuidados. A NBR 14931 aciona providências quando a temperatura ambiente chega a 35 °C, especialmente com umidade relativa abaixo de 50 %, e manda suspender a concretagem acima de 40 °C. Depois do lançamento e do adensamento, devem ser tomadas providências imediatas para reduzir a perda de água.
E em dia frio?
A temperatura da massa de concreto no lançamento não pode ser inferior a 5 °C, e a concretagem deve ser suspensa sempre que houver previsão de queda da temperatura ambiente abaixo de 0 °C nas 48 horas seguintes. A norma também proíbe aditivos à base de cloreto de cálcio, que atacam a armadura.

A conta que este texto acompanha

Concreto e traço Cimento, areia, brita e água para concreto não estrutural.

Fontes