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Orçamento

Como conferir o orçamento do pedreiro sem ser engenheiro

O que dá para checar sozinho num orçamento de obra, com trena e calculadora, e o ponto em que a conferência para.

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Todo item de orçamento de obra é uma multiplicação: quantidade vezes preço unitário. As duas metades se conferem de maneiras diferentes. A quantidade sai do projeto e da trena, e qualquer pessoa com as medidas do cômodo refaz o número e compara com a planilha. O preço unitário depende de produtividade, encargos, frete e margem, e não se confere no olho. A conferência que funciona sem formação técnica é a do quantitativo, pelos itens que mais pesam.

Dá para conferir um orçamento de obra sozinho?

Dá, na parte do quantitativo. Área de piso, área de parede, volume de concreto e quantidade de blocos saem de medidas que qualquer pessoa tira com trena, e o resultado se compara com a planilha. Preço unitário e BDI dependem de dados internos da empresa e não se conferem por fora.

A separação tem definição oficial. O Decreto 7.983/2013 chama de composição de custo unitário o detalhamento com as quantidades, as produtividades e os custos unitários de material, mão de obra e equipamento para executar uma unidade de medida (artigo 2, inciso II). O quantitativo é o outro fator: quantas unidades de medida a obra tem.

Do lado do preço existe base pública. O SINAPI, mantido pela Caixa Econômica Federal com pesquisa de preços do IBGE, publica todo mês, por estado, preços de insumos e composições de serviço. Serve de termômetro, com a ressalva do próprio manual: aquilo é custo, não preço.

Qual a diferença entre quantitativo e preço?

Quantitativo é quanto de serviço a obra tem, em metro quadrado, metro cúbico, metro linear ou unidade. Preço é o que se paga por cada uma dessas unidades, com custo direto, custo indireto, tributo e lucro embutidos. Errar o quantitativo muda o total mesmo com preço justo, e é o erro mais fácil de achar de fora.

A Tabela 1 do livro de metodologia do SINAPI arruma isso em camadas. Preço é custo mais BDI, e o custo se divide em direto (material, mão de obra, equipamento, ferramenta, EPI) e indireto (equipe de gestão, canteiro, veículos, mobilização). Quem contrata enxerga só a última linha, e por isso dois orçamentos com o mesmo custo chegam a valores diferentes.

Como refazer o quantitativo dos itens que mais pesam

Meça o cômodo, calcule a área ou o volume e compare com a linha da planilha. Quatro itens concentram a maior parte do dinheiro de uma reforma: área de piso, área de parede, volume de concreto e quantidade de blocos. Conferir esses quatro já mostra se o orçamento foi levantado ou chutado.

  1. Área de piso e revestimento. Meça cada ambiente separado, multiplique lado por lado e some. A calculadora de metro quadrado confere o esquadro pela diagonal; a calculadora de piso vira área em caixas, separando perda de corte de reserva de manutenção.
  2. Área de parede. Comprimento vezes pé direito, menos os vãos. É a base do reboco e da tinta, e o desconto de vão costuma explicar a divergência entre dois orçamentos.
  3. Volume de concreto. Área vezes espessura, sem margem de opinião: um contrapiso de 4 cm em 35 m² dá 1,40 m³. A calculadora de concreto devolve o traço e os sacos de cimento; a calculadora de metro cúbico resolve o volume puro.
  4. Quantidade de blocos. Um bloco cerâmico de 14 por 19 por 39 cm com junta de 1 cm ocupa 0,08 m², o que dá 12,5 peças por metro quadrado. A calculadora de tijolos e blocos faz a conta e estima a argamassa.
Compare unidade com unidade. Alvenaria em metro quadrado num orçamento e em unidade de bloco no outro só ficam comparáveis depois de convertidas para a mesma base. É o jeito mais comum de duas propostas parecerem distantes sem estarem.

O que é BDI e por que ele existe?

BDI é a sigla de benefícios e despesas indiretas. O Decreto 7.983/2013 o define como o valor percentual que incide sobre o custo global de referência para realização da obra. Ele cobre o que existe fora do canteiro e mesmo assim é pago: sede da empresa, tributo, seguro, risco, despesa financeira e lucro.

O BDI existe porque o custo de um serviço não paga a empresa que o executa. O manual do SINAPI registra que o sistema, por conter referências genéricas para diversos tipos e portes de obras, não estabelece referências para BDI. Quem usa uma composição dele como preço paga material, operário e equipamento, e mais nada.

Para obra pública, o TCU fixou faixas no Acórdão 2622/2013. Em construção de edifícios, a taxa cheia vai de 20,34 % a 25,00 %, com 22,12 % de valor médio:

Parcela do BDI, construção de edifícios 1º quartil Médio 3º quartil
Administração central 3,00 % 4,00 % 5,50 %
Seguro e garantia 0,80 % 0,80 % 1,00 %
Risco 0,97 % 1,27 % 1,27 %
Despesa financeira 0,59 % 1,23 % 1,39 %
Lucro 6,16 % 7,40 % 8,96 %
Taxa de BDI cheia 20,34 % 22,12 % 25,00 %

As parcelas não somam a taxa cheia porque faltam os tributos, que entram na fórmula dividindo. Uma opinião, com base no mesmo acórdão: BDI alto sem nenhuma linha de administração local é motivo de desconfiança. O subitem 9.3.2.1 manda discriminar administração local, canteiro e mobilização na planilha de custos diretos, por serem passíveis de medição individualizada. Dentro do percentual, esses itens inflam o BDI e somem da vista.

Essas faixas são de obra pública. Saíram de contratos de construtoras, com sede, seguro e financiamento. Pedreiro autônomo não tem nada disso, e o número dele não precisa se parecer.

Empreitada de mão de obra ou empreitada global: o que muda?

Muda quem compra o material e quem paga o prejuízo quando algo se perde. Na empreitada de mão de obra, o contratante fornece o material e assume o risco. Na global, o executante fornece material e trabalho e responde pelos riscos até a entrega. Os artigos 610 a 612 do Código Civil tratam das duas.

O artigo 610 diz que o empreiteiro pode contribuir para a obra só com seu trabalho ou com ele e os materiais, e o parágrafo primeiro fecha a discussão: a obrigação de fornecer os materiais não se presume, resulta da lei ou da vontade das partes. Ou está no contrato, ou o material é por sua conta.

Ponto Empreitada de mão de obra Empreitada global
O orçamento traz Só o serviço, por m², m³ ou unidade Serviço com material no preço
Risco antes da entrega Do dono da obra, sem culpa do executante (612) De quem executa (611)
Confira primeiro Quantidade de serviço e lista de compra Especificação do material

Dois artigos passam batido na assinatura. Pelo parágrafo segundo do artigo 614, o que se mediu presume-se verificado se, em trinta dias contados da medição, os vícios não forem denunciados, prazo curto para quem só confere no fim da obra. E o artigo 619 nega acréscimo de preço por modificação de projeto que não venha de instrução escrita do dono, o que faz do pedido de mudança por mensagem um documento.

Quais são os sinais de um orçamento mal feito?

Item sem unidade de medida, verba fechada em serviço que dá para medir, perda de material não declarada e preço unitário sem composição por trás. Nenhum desses sinais prova má-fé. Todos indicam número estimado de memória, que costuma virar aditivo no meio da obra.

  • Item sem unidade. Uma linha escrita como reboco interno seguida de um valor não diz quantos metros quadrados entraram, e não permite conferência.
  • Verba fechada onde cabe medida. Verba serve para o imprevisível, como trinca que aparece ao retirar o revestimento. Piso, alvenaria e pintura se medem antes.
  • Perda não declarada. A perda de corte precisa vir como percentual, não escondida na quantidade. O SINAPI mediu isso em campo: placa cerâmica perde 5,7 % com peça de 35 por 35 cm em ambiente acima de 10 m² e 15,4 % com peça de 80 por 80 cm em ambiente abaixo de 5 m².
  • Serviço contado duas vezes. Contrapiso como linha própria e de novo dentro do preço de assentamento do porcelanato é o caso clássico.
  • Ausência de critério de medição. Sem dizer se o vão de porta sai da alvenaria, o serviço pode ser cobrado pelo jeito mais caro.

Um orçamento conferido linha a linha

Sala de 5,20 m por 4,10 m, cozinha de 3,60 m por 2,90 m e circulação de 1,10 m por 3,00 m: 21,32 mais 10,44 mais 3,30 dá 35,06 m² de piso. O orçamento traz assentamento de porcelanato 60 por 60 cm com 42,00 m², quase 20 % acima.

Perda de corte explica parte da diferença. Pela Tabela 6 do SINAPI, peça de 60 por 60 cm perde 6,9 % em ambiente acima de 10 m² e 13,3 % abaixo de 5 m². Aplicando a faixa de cada cômodo, a sala pede 22,79 m², a cozinha 11,16 m² e a circulação 3,74 m², somando 37,69 m². Com caixa de 2,16 m², são 18 caixas, ou 38,88 m². Os 42,00 m² da planilha só se compram em 20. A pergunta ao pedreiro não é por que ele mentiu, é o que entrou nas duas caixas de diferença. Reserva para troca futura faz sentido; silêncio quer dizer que o número foi chutado.

Na mesma obra, a parede nova de 3,20 m por 2,70 m dá 8,64 m². Sem a porta de 0,80 m por 2,10 m, sobram 6,96 m², ou 87 blocos antes da perda. Pedir 150 blocos ali é erro de ordem de grandeza.

Onde a conferência para

Refazer quantitativo diz se as quantidades batem. Não diz se o preço está bom, se a equipe tem condição de executar, nem se a solução técnica é a certa. E existe uma classe de item em que conferir sozinho é perda de tempo, porque o problema está no projeto: qualquer coisa que mexa em estrutura (viga, pilar, laje, fundação, vão em parede portante), na prumada do prédio, no quadro elétrico ou no gás. Ali o número depende de dimensionamento, que tem responsável técnico com anotação registrada no CREA ou no CAU. Orçamento de demolição de parede sem dizer se ela é portante ou de vedação não é caro nem barato: é incompleto.

E comparar seu orçamento com o SINAPI mostra ordem de grandeza, nada mais: o sistema reúne referências genéricas para vários tipos e portes de obra. Reforma em apartamento habitado, com elevador de serviço em horário restrito, custa acima da referência sem estar inflada.

Fontes

  • SINAPI, metodologias e conceitos, 11ª edição, Caixa Econômica Federal De onde saíram a Tabela 1, de formação de preço (página 21), a frase de que o sistema não estabelece referências para BDI (página 24) e a Tabela 6, de perdas de placa cerâmica por tamanho de ambiente e de peça (página 97).
  • Decreto 7.983/2013, artigo 2 Define composição de custo unitário (inciso II), BDI (inciso V), preço global de referência (inciso VI) e os regimes de empreitada por preço unitário e por preço global (incisos XIII e XIV).
  • Acórdão 2622/2013, TCU, Plenário, processo TC 036.076/2011-2 Cópia publicada pela Universidade Federal Fluminense. Traz as faixas de BDI por tipo de obra do subitem 9.1, o detalhamento por parcela do subitem 9.2.1 e o subitem 9.3.2.1, que manda administração local, canteiro e mobilização irem para a planilha de custos diretos.
  • Código Civil, Lei 10.406/2002, artigos 610 a 619 Base do que esta página diz sobre quem fornece o material (610), risco até a entrega (611 e 612), medição e prazo de trinta dias (614), recusa e abatimento (615 e 616), garantia de cinco anos (618) e acréscimo de preço por instrução escrita (619).