Inmetro
Quantos BTUs para o cômodo
A conta de 600 BTU por metro quadrado não tem fonte. O que ela ignora é justamente o que faz duas salas do mesmo tamanho precisarem de aparelhos diferentes.
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Não existe, em norma brasileira, um número de BTU por metro quadrado. As regras de bolso que circulam, de 600 ou de 800 BTU/h por metro quadrado com acréscimos por pessoa e por aparelho eletrônico, são aproximações comerciais sem fonte normativa. Elas funcionam razoavelmente em ambientes médios porque foram calibradas em ambientes médios, e erram muito em sala com fachada oeste envidraçada, em quarto sob telhado sem isolamento e em ambiente com pé-direito alto. O que decide de verdade é a carga térmica.
O consumo do aparelho escolhido, em quilowatt-hora e em reais, sai da calculadora de consumo de ar-condicionado.
Primeiro, a unidade
BTU por hora é potência, e o fator de conversão é cerca de 0,29307 watt por BTU por hora. A tabela do Inmetro confirma modelo a modelo: 9.000 BTU/h correspondem a 2.637 W de capacidade, 12.000 a 3.516 W, 18.000 a 5.274 W, 24.000 a 7.032 W e 32.000 a 9.376 W.
| Capacidade | Em watts | Consumo anual no ciclo do Inmetro |
|---|---|---|
| 9.000 BTU/h | 2.637 W | 351,4 kWh |
| 12.000 BTU/h | 3.516 W | 468,5 kWh |
| 18.000 BTU/h | 5.274 W | 702,9 kWh |
| 24.000 BTU/h | 7.032 W | 867,3 kWh |
| 32.000 BTU/h | 9.376 W | 1.033,6 kWh |
A última coluna é o argumento contra o superdimensionamento. Passar de 9.000 para 12.000 BTU/h acrescenta 117 kWh por ano ao consumo declarado, e o número é do ciclo normalizado do Inmetro, de 2.080 horas. Quem usa mais horas paga mais que isso. A leitura completa da etiqueta está em etiqueta do ar-condicionado e o IDRS.
O que a regra de bolso ignora
Seis coisas, no mínimo: o calor que entra pela cobertura, a orientação e o tamanho das janelas, o pé-direito, o número de pessoas, os equipamentos que geram calor e a renovação de ar. Duas salas de 20 m² com essas variáveis diferentes têm cargas térmicas que não se parecem.
| Variável | Por que pesa |
|---|---|
| Cobertura | telhado ao sol irradia calor o dia inteiro para o forro |
| Janela e orientação | o vidro deixa passar a radiação solar direta, e o poente é o pior caso |
| Pé-direito | o aparelho climatiza volume, não área |
| Pessoas | cada pessoa é uma fonte contínua de calor e de umidade |
| Equipamentos | toda a energia que entra em um aparelho vira calor no ambiente |
| Renovação de ar | ar externo quente que entra precisa ser resfriado também |
O item da cobertura é o mais fácil de corrigir e o mais ignorado. Um quarto sob telhado de fibrocimento sem isolamento recebe calor por radiação da face inferior da telha. O catálogo da Brasilit declara condutibilidade térmica de 0,35 W/mK para a telha, o que em milímetros de espessura entrega resistência térmica desprezível. Colocar manta e resolver a ventilação do desvão reduz a carga antes de escolher o aparelho, e às vezes faz o 9.000 bastar onde o 12.000 parecia necessário. O assunto está em isolamento térmico do forro.
O item do pé-direito é o que mais desmonta a regra por metro quadrado. Um cômodo de 20 m² com 2,60 m de pé-direito tem 52 m³; o mesmo cômodo com 4,00 m tem 80 m³, mais de 50 % a mais de ar para resfriar, com a mesma área de piso.
Como reduzir a carga antes de escolher
Quatro medidas ordenadas por relação entre custo e efeito. Sombrear a janela do poente por fora, com brise, toldo ou película. Isolar a cobertura. Resolver frestas em porta e janela. E retirar do ambiente equipamentos que geram calor e podem ficar em outro lugar.
Sombrear por fora é bem mais eficaz que cortina interna, e a diferença é de física: cortina do lado de dentro barra a radiação depois que ela já atravessou o vidro e virou calor dentro do ambiente. Brise, toldo e árvore barram antes.
Cada uma dessas medidas reduz carga permanentemente, enquanto o aparelho maior aumenta consumo permanentemente. Quando as duas opções custam parecido na instalação, a que reduz carga ganha sempre no prazo longo.
A renovação de ar entra na conta
A Portaria 3.523/1998 fixa renovação de no mínimo 27 m³ por hora por pessoa em ambiente climatizado de uso coletivo. Todo ar externo que entra num ambiente climatizado precisa ser resfriado, e por isso a renovação é uma parcela da carga térmica, não um detalhe de conforto.
Em casa isso aparece como o conflito conhecido: janela fechada gasta menos e o ar fica pesado; janela aberta renova e joga a conta para cima. A solução de projeto é renovar de forma controlada, em volume conhecido, em vez de alternar entre os dois extremos.
Quando vale contratar o cálculo
Quando o ambiente foge do padrão. Sala com fachada envidraçada, cobertura sem forro, pé-direito duplo, ambiente comercial com muita gente, ou qualquer caso em que o erro custe um aparelho a mais. Cálculo de carga térmica é atribuição de profissional habilitado e existe justamente para esses casos.
Em quarto e sala convencionais de apartamento, com janela de tamanho normal e laje acima, as regras de bolso costumam acertar a faixa. O que vale conferir é se você está sendo empurrado para a capacidade acima por precaução: essa precaução tem custo anual conhecido, e ele está na tabela do Inmetro.
Até onde esta página vai
Esta página explica as unidades, o custo do superdimensionamento e as variáveis que a regra de bolso ignora, com dados da tabela oficial do Inmetro. Ela não dimensiona nada e não substitui cálculo de carga térmica, que segue metodologia própria e é trabalho de profissional habilitado. Instalação elétrica dedicada, distância máxima entre unidades e projeto de dutos também ficam fora daqui.
Perguntas frequentes
- Quantos BTUs por metro quadrado?
- Não existe esse número em norma. As regras de bolso que circulam, de 600 ou 800 BTU/h por metro quadrado, não têm fonte normativa e ignoram insolação, orientação da fachada, pé-direito, cobertura, número de pessoas e equipamentos. Elas acertam por acaso em ambientes médios e erram feio nos extremos.
- O que decide a capacidade de verdade?
- A carga térmica, que soma o calor que entra pela cobertura, pelas paredes e pelas janelas, mais o calor gerado dentro do ambiente por pessoas, iluminação e equipamentos, mais o ar de renovação. É um cálculo, e ele é atribuição de profissional habilitado.
- Quanto vale 1 BTU/h em watts?
- Cerca de 0,29307 W. A tabela do Inmetro publica os dois valores lado a lado e confirma: 9.000 BTU/h correspondem a 2.637 W, 12.000 a 3.516 W, 18.000 a 5.274 W e 24.000 a 7.032 W de capacidade de refrigeração.
- É melhor sobrar capacidade?
- Não. Aparelho superdimensionado atinge a temperatura rápido e desliga, sem tempo para desumidificar o ar, o que deixa o ambiente frio e úmido. E custa mais caro na compra e no consumo: na tabela do Inmetro, um 12.000 BTU/h consome 468,5 kWh por ano contra 351,4 kWh de um 9.000.
- A janela muda muito?
- Muda mais que a área do piso. Uma janela grande voltada para o poente recebe sol direto na parte mais quente do dia, e o vidro deixa passar essa radiação inteira. Duas salas de mesma metragem, uma com janela ao sul e outra a oeste sem proteção, têm cargas térmicas bem diferentes.
A conta que este texto acompanha
Consumo do ar-condicionado kWh por mês e custo em reais, com a eficiência real da tabela do Inmetro.
Fontes
- Inmetro, tabela de condicionadores de ar com os índices de desempenho de resfriamento sazonal, versão de 27/12/2021 Tabela oficial do Programa Brasileiro de Etiquetagem. Publica capacidade em BTU/h e em watts lado a lado, o que permite conferir a conversão, além do consumo anual declarado por modelo, com base no ciclo normalizado de 2.080 horas por ano.
- Portaria nº 3.523, de 28 de agosto de 1998, Ministério da Saúde, artigos 5º e 6º Fixa renovação de ar de no mínimo 27 m³ por hora por pessoa em ambientes climatizados de uso coletivo e converte 5 TR em 15.000 kcal/h e 60.000 BTU/h, conversões usadas aqui como referência de unidades.
- Brasilit, Catálogo Técnico da Telha Ondulada, características gerais Declara condutibilidade térmica de 0,35 W/mK para a telha de fibrocimento, usada aqui para mostrar que a cobertura é uma das entradas de calor que a regra de bolso por metro quadrado ignora.