Manutenção
Goteira no telhado
Subir no telhado procurando telha quebrada é o primeiro reflexo e quase sempre o caminho errado. A água entra nos encontros e caminha antes de pingar.
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Telha quebrada é a causa mais fácil de imaginar e uma das menos frequentes. A tabela de falhas comuns publicada pela ANICER, no guia de execução de cobertura cerâmica, não cita telha quebrada nenhuma vez: cita desnível e falta de esquadro na estrutura, falha na galga, inclinação abaixo da recomendada, afastamento excessivo da cumeeira, excesso de emboço na cumeeira, falta de vedação de rufos e calhas, e falta de limpeza dos condutores. Sete causas, e todas elas ficam nos encontros ou na geometria, não na peça.
Por que a mancha não fica onde a água entra
Porque a água que passa a telha não cai em queda livre: ela escorre pela face inferior da peça, desce pela ripa, corre pelo caibro e só pinga quando encontra um ponto baixo ou uma interrupção. Entre a entrada e a mancha há normalmente vários metros de percurso, quase sempre no sentido do caimento.
Isso muda o método de busca. A mancha marca o fim do percurso, então a origem está sempre acima dela, no sentido da subida do telhado, e nunca abaixo. Vale seguir a linha de maior declive a partir da mancha até encontrar o primeiro encontro no caminho: um rufo, uma cumeeira, um rincão, uma chaminé, um duto de ventilação. Na maior parte das vezes é o primeiro que aparece.
Os cinco pontos que concentram infiltração
Rufo com a parede, cumeeira, rincão, calha e a última fiada junto ao beiral. Todos são encontros entre dois planos ou entre um plano e um elemento vertical, e é sempre no encontro que a continuidade da telha se interrompe e a vedação passa a depender de uma peça de arremate.
| Ponto | Falha típica | Sintoma |
|---|---|---|
| Rufo com parede | peça só encostada e selada com silicone, sem transpasse | mancha no teto junto à parede, com bolor |
| Cumeeira | afastamento excessivo em relação ao telhado, ou excesso de emboço | passagem de luz vista de baixo, e trinca na argamassa |
| Rincão | calha de água-furtada estreita para a água das duas águas somadas | transbordo lateral em chuva forte, só |
| Calha | sem caimento, entupida ou com saída pequena | água escorrendo pela fachada durante a chuva |
| Última fiada | inclinação abaixo da recomendada para o comprimento da água | goteira só em chuva com vento, perto do beiral |
A linha da cumeeira merece atenção porque ela aparece duas vezes na tabela da ANICER, com causas opostas. Cumeeira muito afastada do telhado deixa passar luz e água. Cumeeira com excesso de emboço trinca a argamassa e a água passa pela própria trinca. O ponto certo é o meio, e ele é difícil de acertar de baixo, o que faz da cumeeira o arremate mais malfeito do telhado brasileiro.
Goteira que só aparece com vento
É retorno de água, e a causa é geométrica. O vento empurra a lâmina para cima da inclinação e ela vence a altura do encaixe entre uma telha e a de baixo. O guia da ANICER lista a inclinação menor que a recomendada como causa de dificuldade de escoamento, de acúmulo de sujeira e de vazamento de água em seu retorno.
O padrão de diagnóstico é característico e ajuda muito. A goteira aparece nas fiadas mais baixas, perto do beiral, porque é ali que passa toda a água das fiadas acima. Ela não aparece em chuva vertical, mesmo forte. E não existe telha quebrada para achar, o que costuma levar o proprietário a trocar telhas ao acaso por duas ou três estações.
A correção real é aumentar a inclinação, o que quase nunca é viável depois de pronto. As saídas possíveis são reduzir o comprimento da água, dividindo em duas quedas, instalar uma subcobertura que colete a água que retorna, ou trocar por uma telha que aceite a inclinação existente. O raciocínio inteiro está em inclinação mínima e comprimento da água, e a inclinação atual sai do cálculo de inclinação de telhado.
A goteira que não é goteira
Condensação. O guia da ANICER associa a falta de ventilação a condensação de gotas na parte inferior das telhas, com escurecimento e proliferação de fungos como consequência. O forro molha, a mancha se forma, e não entrou uma gota de chuva.
Dá para separar os dois casos sem subir no telhado. Goteira de chuva aparece durante a chuva ou logo depois, em pontos definidos, e o padrão se repete. Condensação aparece em manhã fria depois de dia quente, distribui-se por uma área maior, e é pior justamente nos ambientes fechados, sem circulação. Ambiente sem ventilação com forro selado é o caso clássico.
A correção é ventilar o desvão, com telha de ventilação, com abertura no oitão ou com frestas na linha do beiral. É o oposto do reflexo de vedar tudo, que é o que a maior parte das pessoas faz quando vê água no forro.
Por que vedar por cima costuma piorar
Porque a telha não é impermeável por si: o sistema é. A água que passa uma junta encontra a peça de baixo e volta para fora. Manta ou massa aplicada por cima fecha essa saída, prende a água dentro do sistema e transfere o vazamento para o ponto seguinte, normalmente mais longe e mais difícil de achar.
Há um segundo efeito no fibrocimento. O catálogo da Brasilit registra dilatação por absorção de água de cerca de 3 mm por metro entre a peça saturada e a seca. Numa telha de 3,66 m são mais de 10 mm de movimento entre estação seca e estação chuvosa. Massa rígida aplicada na sobreposição trinca no primeiro ciclo, e a trinca fica exatamente sobre a junta que ela deveria proteger.
O mesmo catálogo insiste em dois detalhes de montagem que evitam trinca sem vedação nenhuma: calço contínuo no apoio e a instrução de nunca apoiar a telha na aresta. Telha apoiada na quina da onda concentra tensão num ponto e racha com o peso de quem sobe para consertar a goteira.
A rotina que evita a maior parte disso
Uma inspeção por ano, antes da estação chuvosa. O guia da ANICER lista cinco itens: desobstruir os pontos de ventilação, limpar calhas e eliminar sedimentos, verificar a vedação de rufos, chaminés e dutos, substituir telhas quebradas ou danificadas, e lavar o telhado eliminando detritos, vegetação, musgo e fungos.
A árvore vizinha aparece na tabela de patologias com três efeitos encadeados, e vale citar porque quase ninguém liga uma coisa à outra: acúmulo de sujeira, dificuldade de escoamento no canal da telha e entupimento de calhas e condutores, gerando vazamentos. Podar o galho que passa sobre o telhado é manutenção de cobertura, mesmo que não pareça.
Na parte hidráulica, a NBR 10844 já obriga a previsão de inspeção em toda conexão, mudança de direção e a cada 20 m de trecho reto. Se elas existem, a limpeza anual do condutor é trabalho de meia hora. Se não existem, o entupimento vira obra. As tabelas de dimensionamento de calha e condutor estão em calha e condutor de água de chuva.
Até onde esta página vai
Aqui está o diagnóstico de infiltração em cobertura com telha, em casa e obra pequena. Laje impermeabilizada tem outro conjunto de causas e outra norma, e o caso do telhado escondido atrás de mureta está em telhado embutido e platibanda. Infiltração vinda de parede, de sacada, de tubulação embutida ou de lençol freático não tem nada a ver com o que está descrito aqui, ainda que a mancha no teto pareça a mesma. Perícia de infiltração e laudo são trabalho de profissional habilitado.
Perguntas frequentes
- Onde a água entra no telhado com mais frequência?
- Nos encontros, não no meio da água. Rufo com a parede, cumeeira, rincão, calha e a última fiada perto do beiral concentram a maior parte das infiltrações. O guia da ANICER lista a falta de vedação de rufos e calhas como causa direta de passagem de água, umidade na parede e deterioração da pintura.
- A mancha no teto fica embaixo do ponto onde a água entra?
- Quase nunca. A água entra, escorre pela face inferior da telha ou pela madeira até encontrar um ponto de gotejamento, e só ali molha o forro. A distância entre a entrada e a mancha costuma ser de metros, e é por isso que trocar a telha que está acima da mancha raramente resolve.
- Goteira que só aparece com vento é telha quebrada?
- Normalmente não. É retorno de água: o vento empurra a lâmina para cima da inclinação e ela passa por baixo da sobreposição entre telhas. O guia da ANICER aponta inclinação menor que a recomendada como causa de vazamento de água em seu retorno, e o efeito aparece nas fiadas mais baixas.
- Posso vedar a goteira com manta asfáltica ou silicone?
- Como paliativo até a chuva passar, sim. Como solução, não. Vedação aplicada por cima fecha o caminho de saída da água que já entrou e desloca o problema para o ponto seguinte. Também impede a ventilação sob a telha, que o guia da ANICER associa à condensação e ao aparecimento de fungos.
- Vale a pena impermeabilizar o telhado com resina?
- O guia da ANICER indica resina ou hidrofugante depois da lavagem, e como agente hidrorrepelente contra fungos e musgo, não como vedação de infiltração. Aplicar resina sobre um telhado que vaza mascara o sintoma por uma estação e dificulta o diagnóstico depois.
A conta que este texto acompanha
Telhas Quantidade de telhas e o peso total que vai sobre a estrutura.
Fontes
- ANICER, Guia Prático de Execução de Cobertura com Telhas Cerâmicas, item 9.1, falhas comuns de execução Tabela de causa e efeito publicada pela associação: desnível e falta de esquadro na estrutura, falha na execução da galga, inclinação menor que a recomendada, afastamento excessivo da cumeeira, excesso de emboço na cumeeira, falta de ventilação, vegetação no entorno e falta de vedação de rufos e calhas, cada um com o efeito que produz.
- Mesmo guia, itens 6, 7.2 e 8, segurança, galga e manutenção Recomenda pisar na cabeça da telha, onde ela se apoia sobre a ripa, e nunca subir em telhado úmido. Manda conferir alinhamento a cada três fiadas e três faixas, e estabelece a rotina anual de manutenção da cobertura.
- Brasilit, Catálogo Técnico da Telha Ondulada, seções de recobrimento e apoios Recobrimento longitudinal e lateral por onda, exigência de calço contínuo e a instrução de nunca apoiar a telha na aresta. Registra dilatação por absorção de água de aproximadamente 3 mm por metro entre a peça saturada e a seca.
- ABNT NBR 10844:1989, itens 5.4, 5.5 e 5.7 Cópia hospedada pelo grupo de Engenharia Civil da UFES. Inclinação mínima de 0,5 % em calha e em condutor horizontal, exigência de mais de uma saída em cobertura de laje, ralo hemisférico onde o ralo plano possa obstruir, e inspeção a cada 20 m em trecho reto.